Rita era a mais nova aquisição para o séqüito de empregados que trabalhava para os Pelegrino, família tradicional e aristocrata da petrolífica cidade de Macaé. Reza a lenda que Macaé pertence aos Pelegrino, mas ninguém até hoje conseguiu comprovar tamanha ostentação de riqueza daquela família. Mas isso não importa. O que importa, no momento, é Rita.

Rita recebeu rígidas orientações quanto ao seu serviço. Ela fora contratada exclusivamente para limpar a coleção de cristais e porcelanas da mansão dos Pelegrino. Para executar seu trabalho com perfeição, Rita ganhou seu próprio par de luvas e um espanador.

Rita disse logo a que veio: veio para fazer merda.

Na primeira espanada, ela derruba a “piéce de rèsistance” da coleção: um vaso de porcelana vidrada, vemelho-cobre, produzido no reinado do Imperador Hongwu, da dinastia Ming. O vaso foi comprado pelos Pelegrino de um empresário de Macau por 78 milhões de dólares. Informações, é claro, que Rita desconhecia.

Rita, nervosa, recolhe rapidamente os cacos. Rita é uma profissional. E profissionais da sua estirpe assumem suas falhas. Na verdade, crescem com elas.

Rita procura na agenda o telefone da sua patroa. Sim, ela vai ligar e dizer o que havia acontecido.

Rita:

“Dona Pelegrino, sou eu…a Rita. É…hã…sim, tô na sua casa…Dona Pelegrino, eu tava aqui começando o sirviçu quando derrubei um vrido…que vrido? É um vermelho, grande, bunitão…Dona Pelegrino? Dona Pelegrino…a senhora tá aí? Ó…não fica assim, não. Desconta esse vrido do meu pagamento….muito caro? A senhora desconta do próximo pagamento….hã? E do próximo? E do próximo? Hã? Minha quinta geração ainda vai estar pagando pelo vrido? Que vrido caro, hein, Dona Pelegrino? Dona Pelegrino?”